RESUMO DIA 1 : RIO MODA DISCUTE INTERNACIONAL 2016 - "A MÚSICA QUE VOCÊ VESTE"

Por Marília Pontes

Nos dias 28 a 30 de junho, aconteceu, no Fashion Mall / Rio de Janeiro, o evento Rio Moda Discute Internacional 2016 - RMDI, idealizado pelo Instituto Rio Moda, do casal Roberto Meireles e Alessandra Marins. O tema deste ano, “A música que você veste”, foi inspirado na monografia de Alessandra e conclui a trilogia iniciada em 2014 com os debates sobre “A arte que você veste”, continuado em 2015 com “O esporte que você veste”. Esses três eventos culminarão no documentário “A cultura que você veste” que está sendo preparado pelo Instituto.



            Além de workshops, mesas de discussão e talkshows de que participaram diversos profissionais influentes na Moda e na Música, o evento contou com a instalação “Alta Tensão”, inspirada no punk e que teve a intervenção do editor de moda Rogério S. Todas as peças expostas foram desenvolvidas pelos alunos do curso de Produção de Moda do SENAC/RIO, através da técnica de modelagem tridimensional chamada moulage (também conhecida como draping).

  Foto: Marilia Pontes

No primeiro dia de RMDI, participaram da mesa de discussão, que foi mediada por Alessandra Marins, Yasmin Vilhena (DJ da Rádio Ibiza e sócia da Altlaw), Marina Franco (stylist e cantora) e Antonio Schuback (stylist). Eles contaram um pouco sobre as respectivas trajetórias profissionais e comentaram sobre como a Moda e a Música se relaciona(ra)m dentro delas.
Yasmin Vilhena, por exemplo, começou como DJ, planejando playlists para diversas marcas de Moda. Para tanto, ela precisou se aprofundar na identidade de cada uma delas para, enfim, poder desenvolver seu trabalho. Após ganhar experiência na área, ela decidiu empreender através do e-commerce batizado de Altlaw. A grife é, segundo Yasmin, uma multimarcas de lifestyle, pois não vende somente produtos do vestuário, mas seu acervo compreende objetos de decoração e design, incluindo livros, máquinas fotográficas e até sabonetes. Isso porque a integração foi tanta entre esses itens e a identidade pensada para a marca, que tornou-se impossível separá-los. É justamente essa a razão pela qual a Altlaw não tem coleções, como as marcas de Moda, e depende do próprio estoque altamente diversificado.
            Marina Franco, conhecida como Marininha Franco, é formada em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, atualmente ela é responsável pelo curso de “Figurino para Cinema” no Polo de Pensamento Contemporâneo – POP, também no Rio de Janeiro. Ela falou sobre a influência do rock dos anos 80 e 90 na sua vida, em especial, do grupo Nirvana. Por ser stylist e cantora, ela enfatizou como Kurt Cobain, mesmo sem planejar seu figurino para shows ou sua postura como artista, ainda consegue influenciar gerações. Inclusive, ela relatou que já teve poucas experiências com a criação do estilo de bandas, entretanto, por conta da subjetividade que envolve esse processo, enfrentou dificuldades para casar a identidade delas e das músicas com os trajes usados nos palcos. Contudo, segundo Marina, quando o estilo musical é o pop, essa dificuldade é amenizada em virtude das diversas camadas de influência que ele sofre e também é agente, criando símbolos na indumentária desse ritmo e envolvendo maiores cuidados estéticos por causa do seu grande alcance social, na maioria dos seus nichos. Em contrapartida, quando se trata do figurino de algum personagem, é mais fácil se ater ao texto e ao contexto do mesmo. Por fim, ela afirmou que não se envolve na criação do Design de Moda e não tem uma marca nesse segmento devido à falta da formação técnica necessária para fazê-lo.
            Antonio Schuback é stylist do Dream Team do Passinho, um grupo musical e de dança que fechou o desfile da marca de beachwear carioca Blue Man no evento Rio Moda Rio (junho/2016). Sua caminhada no mundo da Moda e da Música começou por influência de sua mãe, que ele considerava um ícone. Para poder ser conhecido no meio, ele contou com a ajuda da namorada para alimentar uma conta no Instagram® com seus looks do dia. A partir disso, as portas começaram a realmente se abrir e ele começou a desenvolver alguns produtos. Por sua habilidade inata em combinar estampas, ele foi chamado para integrar a Rede Asta, que tem um projeto social de empoderamento feminino através do artesanato, formando novas empreendedoras. Como os materiais usados na confecção dos produtos é doado e, muitas vezes, está protegido por direitos de propriedade intelectual, sua contribuição foi essencial para ensinar as artesãs a inovar em sua arte, atendendo a requisitos jurídicos e criativos do negócio. Atualmente, ele estuda Design de Moda a fim de suprir o conhecimento técnico que lhe faltava.  


Antonio Schuback, Marina Marins, Marina Franco e Yasmin Vilhena. Foto: Marilia Pontes

            O talkshow do dia teve como tema “Design e Styling: a influência da Música na Moda” e contou com a contribuição de Adriana Bozon (estilista da marca paulista Ellus), Carol Roquete (stylist da cantora Anitta), Karina Mondini (estilista da marca carioca Farm) e a mediação da jornalista Maria Prata. Ele foi aberto por Roberto Meireles, que comentou sobre a confiança necessária na equipe que planejou e concretizou o evento, dos profissionais da Moda e da Música para continuarem investindo nesse ramo e de todos os brasileiros, apesar das dificuldades que o país vem enfrentando. Ela é necessária para manter, mas também para transcender e foi esse estímulo que o Instituo Rio Moda quis salientar no RMDI 2016.


Carol Roquete, Adriana Bozon, Karina Mondini e Maria Prata. Foto: Marilia Pontes

            Adriana Bozon palestrou a respeito da relação da Ellus com a Música. Essa marca, de São Paulo/SP, foi criada em 1972 por Nelson Alvarenga, que começou vendendo camisetas bordadas e, desde a origem, já tinha uma identidade muito forte ligada ao rock e aos festivais como Woodstock. Ela foi responsável por criar o primeiro jeans brasileiro utilizando pedras na máquina de lavar, quando o índigo ainda não era usado no seu processo de fabricação.

            Na música, ainda é muito marcante a contribuição da Ellus. Tudo começou quando, no final da década de 1970, foi criado o selo Ellus Sound de LPs. A partir disso, a marca começou a: patrocinar bandas como a Made in Brazil (punk e rock) e os Novos Baianos; incentivou artistas nacionais usando suas músicas em comerciais na televisão; na década de 1990, incentivou eventos de Moda como o concurso The Look of the Year da Ford Models; fez parceria com artistas, como Arnaldo Antunes, na criação de coleções-cápsula que trouxeram, pela primeira vez na casa, a discussão sobre o pagamento de royalties proporcionais à venda dos produtos; em 2012, ter criou a banda Ellus para seu desfile apresentado no Ibirapuera, inspirado nos grandes festivais de Música; além de, 2015, ter sido responsável pelo estilo da turnê Sarau de Carlinhos Brown, que fugiu completamente do escopo de trabalho deles com o rock. Cabe, inclusive, destacar que essa marca é conhecida pela numerosa variedade de licenças de marcas de bandas que possui e são periodicamente usadas em produtos vendidos em todo o Brasil, seja por lojas próprias ou multimarcas.
            Perguntada sobre como é o processo de criação da Ellus, que tem uma identidade tão forte sem ser caricata, Adriana respondeu que é necessário ter uma boa equipe; trabalhar bem o nome de marca e reforçar a identidade internamente; conscientizar os seus colaboradores sobre os pilares daquele negócio; estimular o brainstorming em equipe; ter ousadia e se despir de preconceitos e manter o ambiente urbano, o DNA São Paulo sempre. Acrescida a isso vem a Música, responsável por complementar com a emoção sentida até aquele momento culminante, que é o desfile.   


          Adriana Bozon. Foto: Marilia Pontes

            Carol Roquete é stylist e, por 10 anos, trabalhou quase que exclusivamente com editoriais de Moda. Há cerca de um ano e meio, ela iniciou um projeto de styling com a cantora Anitta, a fim de superar a imagem do funk que deixou de ser seu único estilo musical.
Primeiramente, ela relatou como foi o início dessa experiência nova com a Música e revelou que seu trabalho partir da busca de referências de estilo de artistas pop internacionais – como Madonna e Rihanna -, além das cores alegres e vibrantes presentes na cultura japonesa. Em função da atuação da Anitta com o público adulto e infantil, esse equilíbrio é necessário para que ela melhor se apresente ao público. Essas ideias eram explicadas e discutidas com a cantora, criando uma relação de parceria baseada no respeito e com foco no cliente. Além disso, sobre esse ramo de atuação, Carol destacou a importância de planejar a mudança de estilo e comportamento a longo prazo e ir concretizando as etapas devagar, bem como de quão é necessário ter cartas na manga e jogo de cintura para lidar com acasos. Superada a dificuldade do início e tendo conseguido “limpar” a imagem da cantora de excessos, atualmente é mais fácil para a Anitta ser vista como representante de marcas de luxo como Moschino, Dolce & Gabbana e estilistas como Alexandre Herchcovitch. Inclusive, ela contou que essa cantora está criando uma coleção de jeans!
As mudanças na Anitta – tanto de trajes, quanto físicas - têm sido veiculadas nos mais importantes veículos de Moda do país. Sobre as críticas ao guarda-roupa de sua cliente, Carol esclareceu que lê todas, embora ainda não saiba lidar muito bem com as negativas.


                                                            Carol Roquete. Foto: Marilia Pontes

Karina Mondini, apesar de paulista, é responsável pelo setor de Estamparia da Farm, que é uma marca carioca, criada em Copacabana, dotada de uma identidade muito forte, focada na jovem da Zona Sul do Rio de Janeiro. Com pontos de venda em todo o Brasil, a Farm é um caso clássico, segundo Maria Prata, de que “o ponto de vista da criação não determina o público consumidor”.
Apesar de estar completando 20 anos, a Farm, que começou sua trajetória na Babilônia Feira Hype, muito conhecida e frequentada nessa cidade, fez, somente em 2016, sua primeira parceira com uma cantora. Céu que, além de consumidora, era fã da marca, é, segundo Karina, uma representante da marca, o que foi decisivo para que o projeto fosse levado adiante.
O processo criativo foi iniciado sem a participação da Céu, a partir de duas fotos do acervo pessoal dela (uma delas está abaixo) e de outras referências coletadas em ferramentas como o Pinterest. Depois disso, essa cantora participou da criação da coleção-cápsula, inclusive com desenhos que ela mesma criou e foram estampados em camisetas. A estilista destacou que o projeto de coleção é levado muito a sério porque todas as inspirações são “filtradas” e muito direcionadas para atender ao padrão Farm, que é colorido, fluido, com bastante informação...enfim, é brasileiro.


Já esgotada, a coleção “Velvet Cajú” recebeu esse título porque a Céu costumava tomar licor de caju com sua avó, o acento no “u” é para homenagear o nome da cantora e o veludo foi para demonstrar a atmosfera lúdica em que ela está inserida. Todo esse processo coincidiu com o lançamento do novo CD da Céu chamado Tropix, que também apresentou mudanças no estilo antes seguido por ela, mostrando que o rock também a influencia.
Por fim, Karina contou que o próximo projeto da Farm é montar araras específicas representativas dos diversos Estados brasileiros, a fim de misturar o estilo dessa marca aos estímulos nacionais.

  Karina Mondini. Foto: Marilia Pontes


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